terça-feira, 20 de junho de 2017

A praticidade da dor

"A praticidade da dor"
Você recebe uma notícia difícil de escutar.
Ela ecoa dentro de você causando um tsunami de dor.
Automaticamente toda a água do seu corpo se junta formando ondas de choro que sobem até desaguarem no globo ocular.
Os pensamentos se juntam todos num mesmo lugar, num vídeo-case da sua vida passado num telão que se abre bem na sua frente. Tudo isso em 2 segundos.
Daí você tenta segurar a pressão, equilibrar aquela gota concentrada de tristeza e ela vai recuando, queimando todo o caminho da volta.
Você precisa pensar no próximo passo.
Precisa marcar exames.
Precisa avisar a família.
Reativar contatos.
Cuidar dos trâmites.
Fazer escolhas.
O mundo pede praticidade enquanto você só queria sentar ali no cantinho e chorar.
Tomar um banho de sal grosso fabricado por você.
Relembrar os momentos.
Pensar no “onde foi que eu errei” mesmo não havendo erro algum.
Mas não há tempo.
O resultado tem pressa.
A realidade não espera.
Mas a dor é lenta.
É difícil ser prático quando a alma pede um pouco de burocracia.
Então você se anestesia e resolve, liga, escuta.
O sofrer fica para depois.
Ou não.
Ele vira saudade.

Madrugada


Você costuma aparecer do nada no meio da noite e pular na nossa cama.
Assim, sem nem avisar. A gente acorda no susto e a reação nem sempre é boa, meu filho. Porque não é porque somos pai e mãe que temos que engolir nossa raiva e estarmos sempre prontos pra te atender.
As vezes a reação vai no ímpeto mesmo e, ao invés do acolhimento que você busca, encontra uma palavra vestida de grito.
Também já aconteceu de você passar com a roda da sua bicicleta em cima do meu pé e eu ter que segurar a minha mão pra não revidar a dor. É ação e reação, filho. Você ainda vai aprender um dia em suas aulas de física.
E eu juro que me seguro bastante para não ser eu a te ensinar na prática.
Ontem, depois do susto, tentei conversar direito com você, mas você ficou chateado e não quis muito papo. Então, o que não ficou dito virou diálogo dentro da minha cabeça e não me deixou dormir por algumas boas horas. Sempre acontece assim.
São nessas horas que fico tentando entender como é essa coisa toda de educar alguém. Não é muito fácil preencher nossas folhas em branco, sabe?
Ainda mais no escuro da noite.
Eu não sei se você reparou (mas eu tenho quase certeza que sim) que a mamãe tem um sério problema com sono. E se durante o dia já é difícil pra mim segurar o instinto, de noite é quase impossível, filho. Me desculpe.
Sei que você é só uma criança de 6 anos tentando fugir dos seus medos. Mas eu sou só uma mãe de 37 tentando fugir dos meus também.
Que tal se a gente se chegar de mansinho pra não acordá-los?
Não sou muito boa nos sobressaltos, sabe? Nesses momentos, a mamãe costuma reagir sem pensar e vira o próprio monstro que ora habita seus sonhos.
Fico pensando se seria melhor eu não te contar essas coisas e não dividir as minhas dificuldades com você. Mas a mamãe não costuma fingir nas relações. Com você não poderia ser diferente, não é?
É bom que você saiba que sempre que se sentem ameaçadas, as pessoas reagem, filho. E que a mamãe se sente muito mal de, muitas vezes, não conseguir se controlar.
O que acha da gente se chegar devagarinho para não acordar nossos monstros?
Prometo seguir dividindo minhas dificuldades com você e te ajudar nas suas?
O que acha de me ajudar com as minhas também?
Um beijo cheio de sono.

Ha 4 anos ele perdeu um dos olhos. Mas nunca o olhar.

Seus olhos são verdes.
Verdes e tão vivos...
E já viram muita coisa.
A fome na fazenda, a fartura do cerrado.
As letras que se desenhavam no papel preso na máquina de escrever.
Viram a guerrilha de perto. A tortura na pele.
O amigo desaparecido.
A família que se foi aos poucos.
Um casamento, dois filhos.
O brilho encobrindo a cena.
Sempre olharam pro futuro, os seus olhos.
Tão cheios de olhar, os seus olhos.
Tão cheios de vida.
Quando eu era bem pequena, me lembro de pedir pra gente trocar.
Pra eu ter um olho verde e outro marrom.
Pra você ter outro par assim também.
Pra gente ser igual, pra eu ter o seu jeito de olhar.
O seu desenrolar.
Os seus olhos verdes resolveram se separar.
E um deles foi morar em outro lugar.
Mas o que eles viram juntos, está la.
Os seus olhos verdes continuam no plural.
Mas hoje um está verde e outro marrom.
Assim como os meus.
É só olhar.

Ubergato

A gente se conheceu num desses aplicativos. Uau, como era lindo! Combinamos um encontro e ele apareceu pra me pegar quase que sem nenhum atraso. 
Abriu a porta do carro pra mim. Perguntou se eu estava bem e como tinha sido meu dia.
Depois, quis saber se a temperatura do ar estava boa. Que homem pergunta isso, meu Deus? Eu só respondia que sim. O danado sabia que era bonito. E eu sabia que ele sabia que tinha me deixado sem reação.
O trânsito tava parado. Que coisa boa. Iria até Goiânia com ele, meu amô.
Foi então que depois de 15 minutos, chegamos.
Ele me desejou boa noite e eu desejei ter a sorte de encontrá-lo mais vezes.
Poderia fácil ter sido um date. Mas era só um uber gato.
Fiz a única coisa que seria possível naquele momento: lasquei 5 estrelas nele e entrei feliz da vida em casa.

Falta quanto para você se aposentar?


Tem gente que já sai da faculdade aposentado.
Outros, nem chegam a entrar. Porque foram aposentados pela adolescência.
Alguns se aposentam pelo tempo de trabalho e, mesmo assim, continuam na ativa para a cabeça não parar.
Tem os que se aposentam por uma situação da vida, por um período determinado ou sem nem perceber.
Aposentado aos 18, aos 30, por invalidez de pensamentos.
Aquela preguiça que chega, se instala e acha que encontrou a casa certa, com vista para pequenos problemas e com um bom controle remoto de decisões sempre à mão.
Esse ano eu me vi aposentada aos 35. Não pela falta de vontade, mas pelo excesso da falta.
E, mais do que rapidamente, vi também que era hora de voltar. Recolhi alguns sonhos, alguns projetos espalhados pelo chão, umas vontades que nem chegaram a ser e bati na porta da vida.
Porque, para mim, aposentadoria não é questão de idade.
É de vontade.
Você pode se aposentar aos finais de semana, entre um trabalho e outro, em uma manhã preguiçosa ou tarde da noite.
Você pode se aposentar de uma situação, de uma pessoa e até de um sentimento.
Mas não dá pra se aposentar de você mesma.
Nem aos 18, aos 35 ou aos 100.

Fluência

Falo inglês como quem procura letras no teclado.
Pequenos encontros sonoros. Reações químicas que provocam significados.
Falo inglês como quem tira uma música de ouvido no piano.
Frase a frase vou construindo a minha melodia.
No meu tempo.
Com o meu respiro.
As palavras têm tradução simultânea dentro de mim.
E gosto da maneira como elas se combinam quando eu escrevo.
Falando é diferente.
Elas se perdem, se enroscam, procuram abrigo.
As minhas palavras não têm voz.
Sobrevivem de texturas.
De toques.
O meu inglês foi viver fora.
E levou o meu português junto.
Lá eles se entendem.
Ou convivem bem com o silêncio de cada um.
Por aqui, fico com as palavras que reverberam dentro de cada um.
Nesta língua eu sou fluente.
E tenho voz.

Manchester

Filhos,
Faz 23 dias que a mamãe saiu de casa para se sentir novamente em casa. O inglês foi a grande desculpa. Dessa vez eu precisava por a culpa em algo que não fosse em mim mesma.
Enfrentei meus medos, enfrentei minhas inseguranças e todos os desconhecidos que existiam aqui dentro. E fui.
Desde que a mamãe e o papai se casaram e vocês nasceram, não ficava sozinha só com o barulho dos pensamentos.
Passar 20 dias na casa de quem a gente não conhece é como passar a vida toda não sabendo quem a gente é.
É preciso intimidade para se viver junto.
É preciso coragem para se olhar.
E a mamãe juntou cada tantinho de coragem que existia dentro dela para acender algumas luzinhas.
Fiz isso por mim, mas também por vocês, filhos.
Para que vocês cresçam sabendo que mais importante que a altura é o tamanho que a gente alcança aqui dentro.
Para que vocês percebam a importância de se dar importância.
Para que vocês entendam que nenhum barulho lá fora pode calar a voz que existe dentro da gente.
E que por mais que vocês sejam fluente em algum idioma, nenhuma fluência vai ser maior do que a que a gente ganha quando se conhece.
Mamãe está de volta, amores.
Estamos finalmente em casa.